Homem é Homem
Acredito ter passado a maior parte da vida adulta (até então) tentando me distanciar das figuras masculinas que estavam ao meu redor quando era criança e adolescente. Distanciar dos comportamentos, das preferências disso ou daquilo, de lidar com julgamentos ou em ser julgado. Enfim, saber do forte machismo que envolvia aquilo tudo e usar a inteligência que acredito ter para combater esse mal.
Ao levar isso para a terapia, a psicóloga sugeriu que eu talvez estivesse muito apegado a aversão que tenho sobre tais figuras a ponto de sempre estar apegado… às próprias figuras.
Ela me deu um exemplo de uma mãe de primeira viagem que sempre faz coisas para o filho, tendo como referencial aquilo que ela teve ou não enquanto filha. “Vou fazer isso para meu filho, porque minha mãe não fez isso para mim”; “Vou comprar isso para meu filho, porque minha mãe nunca comprou isso para mim”; “Vou criar meu filho dessa forma, porque minha mãe não me criou assim” etc.
Por mais que exista a boa intenção de dar uma vida melhor ao filho, diferente da que teve, a figura da mãe carrasca estava sempre lá, preenchendo o presente momento com sentimentos complicados.
Pegando esse exemplo e tentando aplicar à minha situação, conseguir criar uma ilustração mental. Imaginei que eu tinha uma trena infinita, que eu colocava essa trena nessas figuras masculinas e começava e me afastar. De tempos em tempos, eu olhava para a trena e me sentia orgulhoso ao perceber que “já me distanciei 1 quilômetro”; “Já me distanciei 5 quilômetros”; “Já me distanciei 100 quilômetros”.
Entretanto, por mais distante que eu conseguia chegar, o vínculo com tudo aquilo que eu era/sou averso, continuava lá. Continuava ligado a mim. O orgulho de ser diferente trazia nas costas uma antipatia de tabela.
Foi então que esclareceu o pensamento de “Para de olhar para a porra da trena”.
Pareceu mágica. Naturalmente, esse distanciamento perdeu força, a ponto de sumir da minha cabeça. Foi curioso quando ele voltou apenas para me fazer perceber que eu já não pensava mais sobre ele.
Claro que ele ainda existe em algum lugar, esse texto é a prova disso, mas é inusitado a forma como encaramos as coisas e como estratégias ou ferramentas mentais (e individuais) conseguem modificar esse encarada.

