Condenado
Rafting não é para todos. Entusiastas do esporte precisam se dedicar muito. Houve um tempo em que me considerava um bom esportista, mas, neste momento, tudo (absolutamente tudo) foi colocado em dúvida na minha mente.
Pensando bem, o que aconteceu não se trata apenas de ser bom esportista ou não. Não se trata apenas de saber conduzir um bote ou não. Trata-se de responsabilidade. Estou perdido e foi tudo culpa minha. Sanya... Pobre Sanya, não teve culpa alguma, mas, agora, pagou caro por um erro meu.
Desde o início do acampamento, minha conexão com Sanya foi instantânea. Iniciamos o papo amistoso como qualquer casal que acaba de se conhecer, porém, nossa semelhança em personalidades extrovertidas potencializou nossa relação.
As atividades providas pela agência de turismo eram diversificadas. Fizemos muitas delas juntos, porém, era no rafting que eu encontrei a possibilidade de impressioná-la. Era ali que o pavão iria mostrar sua plumagem colorida...
Estúpido.
Pelos tantos anos de atuação como instrutor, consegui ser o líder da minha equipe. Ainda consegui limitar o bote a mais um casal, somente. Logo, seríamos apenas quatro pessoas. Escolhi outro casal que já havia se estabelecido e que estava curtindo as férias.
Fomos o último bote a sair. Assim, eu poderia levar o tempo que fosse, antes de chegar ao destino.
Nos divertimos, passando pelas pequenas quedas. O casal na parte da frente do bote, Sanya e eu atrás.
Eu dava os comandos e era atendido pelos três, prontamente. Não apenas Sanya levava à risca todas as minhas ordens, para desfrutar o melhor possível daquela atividade, mas o outro casal também.
Eis que, um comentário que partiu de Sanya foi a fagulha para o estouro do meu erro.
— Acho legal este caminho, mas você não conhece outro mais… emocionante?
A partir daquele momento, peguei esse possível conhecimento como uma missão em que eu não poderia falhar. Se Sanya queria um caminho mais emocionante, eu PRECISAVA entregar a ela um caminho mais emocionante.
Bastou chegarmos na próxima divisão do rio, mais a frente, para eu dizer:
— Vamos pela direita, pessoal.
Como um sinal divino, o homem do casal a frente me alertou.
— Acho que os que foram na frente, seguiram pela esquerda, neste ponto, não foi?
Mais preocupado em soltar a frase “não era emoção que você queria”, de forma engraçada para Sanya, num momento oportuno, do que engolir meu orgulho e dizer “ah, sim... você tem razão”, para o rapaz, seguimos conforme meu plano.
Eu sabia que nenhum instrutor deveria pegar aquele caminho do rio, pois as quedas ficavam cada vez mais altas e perigosas.
Logo na primeira queda do novo caminho, os sorrisos cessaram. A mulher do casal me questionou se aquele caminho que fazíamos era mesmo seguro. Dando de ombros, disse que sim e seguimos.
Em determinado ponto, parecia que o fim do rio se aproximava e, diferente de terminar num lago ou no mar, parecia que desbocava no céu.
O desfiladeiro a frente transformava o rio numa densa cachoeira.
Desconfiada, Sanya me olhou e disse a última coisa que ouvi antes da tragédia:
— Nós vamos cair?
Caímos.
Nunca passou pela minha cabeça que eu fosse ser responsável pela morte de alguém. Ainda mais de três pessoas ao mesmo tempo.
Me pergunto o motivo de ter sido o único a conseguir permanecer no bote, ao fim da queda. Seriam os anos de experiência me possibilitando destreza para me manter firme?
Agora, sigo flutuando, deitado e encarando um pequeno pedaço do céu. Sentindo-me condenado pelas minhas escolhas, na esperança de um milagre ter salvo Sanya e o outro casal.
Eu não conhecia o “caminho pela direita” que, erroneamente, ordenei que pegássemos. Que dirá esta parte mais baixa do rio... Ela é margeada por altos pinheiros, tão próximos um dos outros que escondem toda a natureza ao redor e diminuem, consideravelmente, a entrada da luz.
Não sei aonde este rio vai me levar. Estou perdido numa estrada de água com paredes de árvores infinitas.
Acredito que terei um tempo indeterminado para me culpar e me martirizar, antes de saber se sairei daqui com vida ou não.

